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“A Informática está envolvida com 'pesquisa com seres humanos' em muitas mais frentes do que parecia ser o caso”: professora Clarisse Sieckenius fala sobre desafios éticos, em palestra promovida pela Câmara de Ética da PUC-Rio

 
 </STRONG>Fotógrafa:<STRONG> </STRONG>Martha Serra <STRONG>
 Fotógrafa: Martha Serra 

A professora Clarisse Sieckenius de Souza, titular da Informática, foi a segunda docente da Universidade a participar do ciclo de palestras promovido pela Câmara de Ética em Pesquisa, vinculada à Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos da PUC-Rio, em parceria com o Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (CBCISS) e o SESC/SP.

Realizada no auditório da Coordenação Central de Extensão (CCE), no Centro, a palestra propôs um olhar cuidadoso sobre a relação entre ética e as questões abordadas na pesquisa em informática. A professora Clarisse Sieckenius falou à Assessoria de Comunicação da Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos sobre os desafios dessa relação.

Assessoria de Comunicação/VRAC: Como surgiu a reflexão sobre a ética em pesquisa no Semiotic Engineering Research Group, que coordena na Informática?

Clarisse Sieckenius: Somos um grupo muito atento a questões éticas em nossas pesquisas. Nosso foco é o estudo da interação entre pessoas e tecnologias digitais (o nome oficial da área no Brasil é Interação Humano-Computador, ou IHC). Por isto, estamos constantemente preocupados em conduzir a pesquisa de maneira ética e responsável. Esta preocupação começou há muitos anos, motivada pelo que vimos e aprendemos com nossos colegas e parceiros de pesquisa no exterior, num movimento que ganhou força na América do Norte e Europa por volta dos anos 2000. Aqui no Brasil, a nossa comunidade científica de IHC é também muito atenta a estas questões, mas como somos cerca de 20 anos mais jovens que a comunidade internacional da mesma área, esta cultura só se estabeleceu mais recentemente entre nós.

Ascom/VRAC – Em  sua opinião, quais são os principais desafios éticos da pesquisa em Informática?

C.S. - Os desafios são muitos e muito complexos. Qualquer um de nós tem grande dificuldade de percebê-los e enunciá-los em todas as suas instâncias e dimensões. Porém, até aqui, a nossa experiência já aponta alguns suficientemente espinhosos. Posso começar por aquele que acho mais fundamental, que é o da formação básica de muitos pesquisadores no cenário internacional de IHC, e de quase todos no cenário nacional. Cursos de graduação nas áreas de ciências exatas e engenharias muito raramente oferecem disciplinas voltadas para uma reflexão sobre aspectos humanos e sociais. Assim, ao ingressarem numa pós-graduação onde pretendem trabalhar com IHC, estão bastante despreparados para entender o alcance e profundidade das questões humanas, sociais e, portanto, éticas.

Adiante destes, porém, há grandes desafios até para quem tem formação em ciências humanas e sociais. Por exemplo, o desafio de separar ou não 'a pessoa virtual' da 'pessoa em carne e osso'. A pessoa virtual tecnicamente é um feixe de dados e padrões de interações com sistemas. Porém, estes 'dados' são nossa identidade e estes 'padrões' são nossa vida online. Um tratamento técnico que pretende que as duas coisas são separáveis é pautado numa premissa bastante questionável. Mas, até nossa própria regulamentação governamental sobre conduta ética em pesquisa com seres humanos faz uma separação. Por exemplo, a regulamentação do Conselho Nacional de Saúde (no. 510/2016) diz que não precisam passar pelo sistema CEP/CONEP pesquisas "com bancos de dados, cujas informações sejam agregadas, sem possibilidade de identificação individual". Acontece que, já em 2007, pesquisadores da própria área de Informática descobriram algoritmos capazes de identificar pessoas através de triangulação de bases de dados de alta dimensionalidade. São, por exemplo, os algoritmos utilizados pelos departamentos de inteligência e segurança nacional de vários países no combate ao terrorismo. Vemos, então, que dispensar pesquisas com 'dados' de um protocolo ético é uma decisão discutível.

C.S. - Um último desafio que posso citar é o fato de que a Informática é hoje um objeto, um modo e um meio de pesquisa. É modo de pesquisa quando é utilizada como método, através de modelos computacionais e simulações de fenômenos de qualquer ordem, inclusive humanos. E é meio de pesquisa quando é utilizada como instrumento, por exemplo, para coleta e tratamento de dados. Logo, toda a ciência contemporânea está envolvida com a Informática. Isto significa que a Informática está envolvida com 'pesquisa com seres humanos' em muitas mais frentes do que parecia ser o caso, quando era vista apenas como uma área de conhecimento destinada a estudar algoritmos e a construir software.

Ascom/VRAC – Quais as formas de detecção do plágio nessa área? Há muitos casos?

C.S. - A Informática criou muitos algoritmos de detecção de plágio, mas acho que as questões éticas na Informática, como comentei acima, estão bem além, ou talvez antes, desta questão do plágio.

Ascom/VRAC – Sobre a palestra, há algo a acrescentar?

C.S. - Um ponto que vale a pena acrescentar é que as principais universidades de pesquisa no exterior têm órgãos específicos para o tratamento de questões contemporâneas de ética em pesquisa que já endereçam claramente este papel pervasivo da Informática em todas as áreas de conhecimento. Uma parte fundamentalmente importante desses órgãos é ter processos claros de orientação e avaliação para ajudar os pesquisadores e os próprios dirigentes das instituições de pesquisa e pautar a sua conduta responsável, diante de si mesmos e da sociedade.

Aqui no Brasil, as universidades de pesquisa, especialmente com centros de excelência em Informática, deveriam iniciar e liderar um movimento forte e urgente para oferecer aos cientistas brasileiros o mesmo tipo de apoio. E um ponto fundamental nesta iniciativa é o seu caráter irredutivelmente interdisciplinar. As discussões não cabem em nenhum território disciplinar estrito e, quando conduzidas neste tipo de perspectiva, não alcançam o sentido mais importante da ética em pesquisa envolvendo pessoas no século XXI.

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A Câmara de Ética em Pesquisa da PUC-Rio, órgão vinculado ao Conselho de Ensino e Pesquisa (CEP), instalada em 2003, tem, entre suas atribuições, elaborar um conjunto de princípios e normas sobre a ética e a pesquisa na Universidade e emitir pareceres, quando solicitada, sobre os aspectos éticos dos projetos de pesquisa.

A professora Ilda Lopes, assessora de ética em pesquisa da Vice-reitoria para Assuntos Acadêmicos, ressalta que a PUC-Rio sempre deu importância à questão no contexto científico e cultural e sempre esteve preocupada com a ética na formação de seus alunos e no desempenho do trabalho de seus professores, pesquisadores e funcionários. "Nos tempos atuais, as questões que a contemporaneidade propõe ao ambiente acadêmico requerem uma persistente reflexão ética, reforça.

Nos três últimos anos, além dos pareceres, a câmara vem realizando uma série de encontros e palestras para professores da PUC-Rio, com o intuito de suscitar discussões e reflexões em torno da ética em pesquisa envolvendo seres humanos, trazendo docentes de outras instituições para apresentar suas experiências, assim como favorecendo encontros internos.

 

Por Renata Ratton

Assessoria de Comunicação

Vice-Reitoria Acadêmica

 

Publicada em: 23/06/2017


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